Apesar de o país ter superado a meta do MEC, com 66 % das crianças com níveis adequados de leitura e escrita até o segundo ano, especialista aponta diretrizes para superar desafios estruturantes e regionais
São Paulo, abril de 2026 – Dados recentes divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) apontam que 66% das crianças da rede pública estão alfabetizadas na idade certa. O resultado indica avanço importante no processo de aprendizagem nos primeiros anos escolares, refletindo esforços recentes de políticas públicas e mobilização das redes de ensino.
No entanto, especialistas alertam que os números, quando analisados isoladamente, não explicam a dificuldade histórica do país em garantir evolução consistente e sustentável na alfabetização. A oscilação de resultados entre regiões, redes e escolas evidencia que o desafio vai além de metas atingidas pontualmente.
Para a especialista em educação Janaína Mourão, diretora pedagógica do método de alfabetização IntraAct Brasil – método alemão de neurociência aplicada à alfabetização –, é preciso olhar com mais profundidade para os dados. “Os indicadores são importantes, mas não suficientes. Quando observamos a realidade da sala de aula, percebe-se que ainda há um descompasso entre o que se mede e o que efetivamente acontece no processo de aprendizagem das crianças. O número pode ter aumentado, mas ainda está aquém do que nossas crianças merecem, além de que se trata de um resultado alcançado ao final do 2º ano”, afirma.
Segundo ela, análises superficiais podem levar a estratégias pouco eficazes e sustentáveis. “Alfabetizar é garantir que a criança desenvolva, de fato, competências sólidas de leitura e escrita no tempo certo. É preciso saber ler com fluência e sem esforço, bem como, com prosódia e velocidade. Todo professor alfabetizador bem como a comunidade escolar deve entender como um cérebro humano aprende a ler, a partir de estudos realmente científicos.”
Com base na experiência prática junto a redes públicas de ensino em diferentes regiões do país, a doutora elenca cinco regras básicas para avançar na alfabetização, de acordo com os pesquisadores alemães Uta Streit e Fritz Jansen, criadores do método IntraAct, baseado na neurociência aplicada à educação:
- Repetir o conteúdo até que a resposta das crianças seja rápida
Uma resposta correta não pode ser considerada suficiente, pois o aprendizado pode ainda ser esquecido. Quando a repetição acontece no momento certo, gera aprendizado acelerado e mantém a motivação das crianças.
- Memorizar rapidamente desde o princípio
A criança deve memorizar o som das letras, com rapidez, já no início do aprendizado. Isso significa que ela deve dar respostas leves e seguras desde o início. Embora aprender a ler seja um esforço, por não ser algo inato ao ser humano, a criança deve vivenciar esse processo de forma fluida e natural. Sem memorizar logo no princípio, a evolução terá entraves, podendo afetar o desenvolvimento e o sentimento de competência da criança.
- Evitar erros desnecessários
“Só quem pode cometer erros aprende” é uma expressão comum. No entanto, no processo de alfabetização, é fundamental evitar que o cérebro funcione no modo “tentativa e erro”, já que erros também podem ser memorizados. Na prática, desaprender o que foi aprendido de forma incorreta costuma ser mais difícil do que aprender corretamente desde o início. Por isso, o processo deve ser conduzido de forma a reduzir ao máximo a ocorrência de erros.
- Não mostrar erros de ortografia às crianças
Atividades que peçam às crianças para encontrarem erros em palavras podem prejudicar o aprendizado, levando-as a memorizar a grafia incorreta. Além disso, pedir que escrevam palavras sem que se verifique a ortografia correta por meio de práticas como a soletração, também pode levar a memorização errada. As crianças devem ter contato apenas com palavras escritas corretamente.
- Trabalhar sempre na direção correta de leitura e escrita
Crianças precisam ler, escrever e soletrar sempre no sentido correto até que alcancem a automatização. Isso é necessário para que elas construam uma janela cognitiva mais ampla para letras e palavras e possam alcançar velocidade na leitura.
De acordo com a neurociência, as janelas cognitivas, ou janelas perceptivas (também chamadas de sacadas de leitura) são pulos que ocorrem da esquerda para a direita (em nossa cultura que tem essa direção de leitura e escrita), podendo abranger de três a quatro letras à esquerda e oito letras à direita. São pulos que ocorrem de forma automática dando a impressão de que visualizamos tudo por inteiro. O tamanho da janela perceptiva depende do treinamento do leitor.
Para a especialista do IntraAct Brasil, o momento exige mais conhecimento científico para soluções ao longo prazo e menos celebração isolada de indicadores. “O desafio é transformar esses avanços em consistência. Isso só acontece quando olhamos para a alfabetização como um processo que deve acontecer respeitando como o cérebro aprende. Não podemos mais ignorar a neurociência”, conclui Janaína.
Fonte da Materia: https://niddedigital.com/brasil-avanca-na-alfabetizacao-mas-desafios-persistem-conheca-5-regras-para-melhorar-a-aprendizagem/